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A ALDEIA QUE EM MIM HABITA

A ALDEIA QUE EM MIM HABITA

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Quando felicidade significa cem soldos, as saudades anulam-se perante a real possibilidade de a seus braços voltar.

Como que um retorno onde a saudade não se suplanta, tamanha a alegria e o abraço afetivo que se estende e nos adentra no término de mais uma edição do Bons Sons.

Sem qualquer soldo requerido que nos interdite, pelas mais diversas variáveis, a passagem, ali se desconvoca o individualismo, alegando um altruísmo que edifica a cada ano que passa uma família, a braços comunitários, num operariado de humanismo, que se envolve nas lides diárias de toda uma aldeia, que estende os afetos que soltam as suas lágrimas, mesmo que galho de vento algum interceda, à espera que se enxuguem e sejam tocados por curioso ser.

Aldeia que reforça o que de coletivo em nós deve viver, contribuindo para um eu que se amarra a um nós que em muito fortalece o lais de guia que a humanos direitos se enlaça.

Certo da dificuldade de cada vez mais deixar Cem Soldos, findos mais uns dias ali passados em contacto com uma família que assistiu ao meu segundo nascimento, aquele que permiti ou que em mim foi provocado pela imensidão de afetos e sentimentos partilhados que só poderia direcionar para um natural trabalho de parto, sem necessidade de qualquer instrumentos de força maior que desnutrisse a essência daquele momento.

Por muito que se peça para justificar o porquê desta minha ligação a Cem Soldos e às suas gentes, tudo que verbalizasse ou escrevesse seria maquilhagem. A todos esses que me questionam tenho uma resposta. Porque sim. Pelo sentido no seio comunitário. Porque são simplesmente eles. Na sua simplicidade. Sem qualquer obrigação de agradar outrem. Optam pelo bem receber, pelo saber amar cada momento em que se inserem, sem pedir coisa alguma em troca a não ser sorriso terno, um abraço. Logo, confiança mútua. Isto o sinto. Sei-o.

Homens e mulheres que invalidam idades, tamanha a dedicação transversalmente aplicada nas tarefas comunitárias. Onde o saber se liga aos afetos e permeiam um espaço que me permite crescer afetivamente e me humaniza.

Cem soldos. Terra que exercita o preconizado em tão desnutrida declaração de humanos direitos. Onde o tempo não é mais nem menos. É apenas o tempo. Na sua completude. Onde, findo um dia, o sentimento é de que o tempo foi simplesmente o tempo. O certo. Apenas ele. Na sua essência e na horizontalidade que o coloca em contacto com cada ação por nós potenciada, em partilha com os restantes que ali se alocam durante uns dias para viver o que em muito nos enriquece. Onde no espaço se dá a continuidade e cabem todos os afetos do mundo. Da comunidade.

O tempo é o instante. Mas um instante que se prolonga no espaço e ali se mantém de forte amarração, reforçada por um empreendimento de cariz humano, para o qual contribui a singularidade de cada uma das pessoas que permite que tal alvorada se concretize.

Não se queira, de todo, acelerar o que o tempo não precisa. Aquele nos basta e nos preenche. Sendo a aldeia, a comunidade, a essência e a construtura de tal acontecimento, ele pode raiar sempre que esta assim o sinta. E sempre comungarei desse sentimento, dessa necessidade de partilha. Mas Cem Soldos e o Bons Sons sente-se todo o ano na singularidade de cada pessoa que lá reside.

A cada ano trago sempre comigo esta família que se testa e, sem pedir, em si conclui que a intensidade do sentido e a entrega a tão humana aldeia leva à formação de uma família que se integra nesta comunidade que tanto faz por si e por nós, onde nos aventuramos, envolvemos, naquilo que idealizaram. De um sonho à sua concretização. Jamais truncado. E que bom fazer parte dele. Um sonho que significa um processo de humanização e de valorização do Outro e das suas capacidades e saberes. Na simplicidade de ser do ser.

Cada vez mais sou pertença da aldeia. Estranho a cidade. Arrisco-me a percorrer, continuamente, um caminho, que me colocará, definitivamente, naquela comunidade-família.

Como que ali uma nova vida, paralela e que se mescla nesta outra que fui tecendo. Mas que um dia em muito será a mesma. A aldeia que me permite tanto. Tanto, que ali vivo e sensível fico a tudo o que me rodeia sem qualquer poluição que atente no atenuar dessa vivência.

Uma relação que despoletada foi pela necessidade de contribuir para singular projeto. Anos passaram. Fortaleceram-se os laços. Ininterruptamente se solidificarão. Incomensurável qualquer pertença. E nestas sentidas palavras, que por vós são lidas, quiçá taquicardicamente, cabem todos os caracteres que não me são permitidos, por regra, escrever. Optarei por traduzi-los em atos e momentos que sei que se proporcionarão a cada comunhão com esta família cem-soldense.

Obrigado a todos e a cada um, certo que sabem quem são, que em Cem Soldos me fazem sentir o que trago bem abraçado a mim.

Nosso corpo, um dia, pergaminho de afetos será. Lê-lo será a maior e terna felicidade do instante que à nossa memória coletiva pertencerá.

José Gonçalves